O trabalho de jornalistas é a única profissão ratificada pela Constituição dos Estados Unidos, desde o século 18. O primeiro mês da segunda Presidência de Donald Trump deixou claro que a imprensa americana está despreparada para cumprir seu papel constitucional.
Sim, era difícil imaginar a rapidez e o escopo do ataque a rotinas tradicionais da cobertura dos três Poderes. A agência Associated Press, fundada em 1846 e detentora de 59 prêmios Pulitzer, foi banida da equipe de imprensa que cobre a Casa Branca; seus repórteres também foram barrados do grupo que embarca no avião presidencial Air Force One. O motivo? A AP continua a chamar de golfo do México o corpo de água que o presidente rebatizou por decreto como golfo da América.
Trump processa as redes ABC e a CBS com acusações que poderiam ser rejeitadas em tribunais. No entanto, ambas, propriedades de grandes conglomerados, cederam à pressão.
A Comissão Federal de Comunicações (FCC na sigla em inglês), que nunca puniu Rupert Murdoch por espalhar desinformação em eleições, investiga as redes públicas de rádio (NPR) e de TV (PBS) com a desculpa de procurar irregularidades nas doações privadas que as mantêm vivas. A Comcast, dona do canal MSNBC, de tendência editorial de centro-esquerda, está sendo investigada pela FCC por promover diversidade, equidade e inclusão.
Atordoadas pela aceleração de decretos e o avanço das tropas de tech bros de Elon Musk sobre o governo federal, as Redações da imprensa mainstream e as de mídia digital mais jovens reagem de forma diferente e não coordenada.
Há um debate sobre como a imprensa deve se solidarizar com a AP. Repórteres da agência têm manifestado desgosto pela falta de apoio coletivo de outras Redações. Fica claro, em conversas sob proteção do anonimato, que todo repórter político da capital teme ser o próximo alvo.
Há uma minoria que defende o protesto em forma de ausência. Se as grandes empresas de mídia tradicional não comparecerem às coletivas, só repórteres da Fox e mídias da franja direitista estariam documentando cenas como o filho de Musk tirando meleca e desacatando o presidente para uma audiência planetária.
Essa postura não encontra respaldo e dificilmente faria a Casa Branca voltar atrás. A chamada imprensa tradicional é hoje apenas um segmento do ecossistema de informação. O único boicote à cobertura da Casa Branca ocorreu em 2009, quando Barack Obama tentou excluir a Fox News, onde hoje Murdoch promove a criminalização da imprensa livre.
Lá Fora
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Um problema que ainda contamina Redações é a distorção da importância de fatos. “Fulano faz isto ou aquilo e viraliza” é a carcinogênica manchete caça-cliques que mantém o público distraído. É um ciclo danoso —a reação visceral a um punhado de trolls que consome o oxigênio e distrai do que importa. Não se trata de contracultura orgânica, mas de gente fora da curva adquirindo poder de sequestrar o debate público.
O troll-mor —este com poder real— é Elon Musk, que usa a plataforma X para atacar a liberdade de imprensa. No domingo (16), ele pediu “longas penas de prisão” para a equipe do 60 Minutes, o programa de notícias mais assistido do país.
Jornalistas já se associam em consórcios investigativos para coberturas complexas que afetam vários países e enfrentam oposição autoritária. O desafio agora não é a uma cobertura. Afeta toda a profissão cuja independência foi sacramentada na fundação da república.
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