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Antônio entrou algemado. Sentou na cadeira de plástico diante da mesa com os prontuários, o estetoscópio, o aparelho de pressão e eu. O carcereiro destravou as algemas.

Era um homem forte, de cabelos grisalhos, que vestia a calça cáqui obrigatória e uma camiseta quase branca. Abriu um sorriso e fez a pergunta que deveria ser proibida por lei federal: “Lembra de mim?”.

Existisse essa lei, estaríamos livres de vasculhar os recônditos da memória, na tentativa de identificar o personagem diante de nós, geralmente um sádico que, sem dar nenhuma pista, se delicia com o nosso constrangimento.

Quando considerou suficiente a duração do meu embaraço, contou que tinha sido meu paciente na Casa de Detenção, o antigo Carandiru, nos anos 1990.

“Tava com tuberculose, bem mais pra lá do que pra cá. Nunca mais esqueci. Quando o senhor aparece na televisão minha netinha diz: ‘Vô, não vai falar outra vez que esse médico tratou de você?’.”

Tinha o olhar cansado, consequência das noites atormentadas pelo prurido intenso causado pela sarna, ácaro impossível de erradicar em celas com nove camas, nas quais dormem 18 homens, em posição de valete: a cabeça de um junto aos pés do companheiro. Os cinco a dez que não desfrutam desse conforto deitam na “praia”, nome afetuoso dado ao chão da cela.

A coceira tinha escarificado a pele, que exibia vergões avermelhados, alguns dos quais com furúnculos em estágios que iam de pequenos pontos inflamados a lesões ulceradas com secreção purulenta.

Pedi para preparar uma injeção de Benzetacil, antibiótico antigo, mas ainda eficaz contra esse tipo de infecção.

Enquanto aguardávamos, perguntei se ele tinha passado preso todo aquele tempo. Disse que depois de cumprir oito anos no Carandiru tivera apenas duas prisões de duração curta, “cadeias de poeta”, como definiu.

Sua vida tinha ido ladeira abaixo quando a compulsão pelo crack tomou conta de tudo:

“Quando minha mulher se cansou dos meus beó, fui morar na cracolândia. Passei quase dez anos na sarjeta, pele e osso, sem roupa pra trocar e sem ver meus filhos”.

Nesse período, interrompido pelas cadeias de poeta, recebeu a visita que mudaria seu destino:

“Minha filha mais velha apareceu na cracolândia, com um bebê no colo. Trazia a filhinha para conhecer o avô. Fiquei tão envergonhado olhando praquela inocente que tinha o meu sangue que saí andando sem rumo pela cidade. Quando clareou, comecei um corre para me internar numa clínica da prefeitura”.

Ao receber alta, procurou a família. Não foi recebido de braços abertos, mas a esposa permitiu que dormisse no sofazinho da sala, desde que nunca mais se aproximasse do crack, promessa que ele jura ter cumprido com determinação até hoje.

Estava trabalhando com carteira assinada quando foi abordado por dois policiais. As câmeras espalhadas pela cidade tinham reconhecido seu rosto: era procurado por descumprir a ordem de retornar à cadeia numa saidinha de Natal, anos atrás.

“Naquela saidinha, caí na besteira de passar pela cracolândia para ver um amigo. No meio do movimento, fraquejei, fumei um, depois outro e outro, e esqueci de voltar. O prazer é tão forte que o senhor não resiste. Tudo na vida, trabalho, filho, compromisso, perde a importância. A pessoa que nunca fumou não faz ideia do prazer que dá.”

Lembrei de uma paciente na penitenciária feminina que descreveu essa sensação como a de cem orgasmos simultâneos.

Em 1992, quando a epidemia de crack se espalhou pelo Carandiru, pensei em experimentar uma vez. Como iria tratar de usuários de uma droga que arregimentava multidões sem ter noção dos efeitos?

Adelson, um dos presos que me ajudavam na enfermaria, me convenceu do contrário.

“O senhor vai gostar. É um prazer que o senhor nunca sentiu tão forte. O coração bate a milhão, pode não aguentar.”

Antônio confessou que depois de tantos anos de abstinência ainda acorda no meio da noite sonhando com a imagem de que está fumando. Mas não ousava voltar:

“Na minha idade nem posso, estou velho, já tenho 56 anos”.

“Você não é velho. Eu tenho 81 e estou aqui trabalhando.”

“Ô doutor, se Deus me abençoar prá chegar na sua idade, vou fumar crack o dia inteiro.”


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