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Há uma outra passagem notável, quando o interlocutor diz que ele poderá passar 40 anos preso. Nota: pelo topo, as condenações, dadas as imputações até agora — há outros inquéritos –, somariam 43 anos. Dificilmente pegaria a pena máxima. Ademais, há progressão. Dadas as modificações de 2019 na Lei de Execução Penal, creio que o ex-presidente terá de cumprir, no mínimo, um quarto da pena em regime fechado. E o que disse o serelepe entrevistado? Isto:
“Quarenta anos, não. Morrer na cadeia. Eu não vou viver mais [do que isso] (…) Para algumas pessoas importantes, não interessa eu preso, interessa eu morto. Eu preso vou ser um problema também, vai haver uma comoção nacional.”

Não custa lembrar que os golpistas tinham, sim, sede de sangue e queriam matar, mas os alvos eram Lula, o vice Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes, ministro do STF e relator dos inquéritos relativos à tentativa de golpe e congêneres. Com o desassombro e o destemor conhecidos para a asneira, Bolsonaro tenta constranger o tribunal que vai julgá-lo: “Eu preso (…), vai haver uma comoção nacional”. Bem, certamente não vai. Os golpistas contaram com o 8 de janeiro como uma “comoção”… O ex-presidente ainda não desistiu de jogar a suas milícias digitais contra o tribunal.

O entrevistador perguntou a Bolsonaro se ele acredita na Justiça. Depois de um breve silêncio, ele conseguiu elaborar isto:
“Olha, o que alguns magistrados têm falado ao meu respeito, eu responderia: ‘Não!’. Primeiro, que o magistrado tem que falar nos autos, não pode ficar dando declaração por aí. O que eles querem, na verdade, alguns querem, é me tirar das eleições do ano que vem. Eles acham que essa inelegibilidade é ainda um pouco frágil, tem que ter uma condenação”.

Os ministros do STF não vão condenar ou absolver Bolsonaro em razão dessa entrevista. Mas resta evidente, em mais essa resposta, que o único tribunal que ele respeita são as suas redes sociais, em que inexiste o contraditório. Como se pode notar, na cabeça deste senhor, as petições de seus advogados são e serão apresentadas a um antro de conspiradores. É certo que todos têm direito à defesa, o que vale também para Bolsonaro. O problema está em que ele não reconhece a legitimidade do tribunal no qual se defende.

Os ministros vão se ater os autos, mas não são nefelibatas ou selenitas. Habitam o nosso mundo. Também sobre eles se pode dizer que são quem são e suas circunstâncias. E os membros da Corte, a esta altura, terão visto ou ouvido esta fabulosa declaração:
“O 8 de janeiro foi programado pela esquerda, você tem imagens do pessoal quebrando lá dentro, mas não quando entrou a turma. Imprensa só mostrava imagem de um magrinho derrubando relógio e tentando derrubar câmera. O governo dizia que não tinha mais imagem, mas, pouco tempo depois, apareceram mais imagens. Foram 33 alertas da Abin para o GSI. Por isso que, no meu entender. era algo programado. Só pode ter sido pela esquerda.”

Essa bobagem debochada já foi desmoralizada de maneira irrespondível.