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Sou leitor de Machado de Assis desde a minha juventude. Li praticamente todos os seus livros –alguns relidos por tão saborosos e criativos. Comecei essa jornada com os 31 volumes deixados por meu pai Enes de Oliveira Alves. Meu pai morreu quando eu tinha oito anos, em 1969, nem sei se chegou a ler todos esses livros, relíquias que guardo até os dias de hoje, coleção luxuosa publicada pela editora W. M. Jakson, de capa dura verde, da década de 1950.

Adentrei o universo machadiano e dele jamais saí. Os livros do Machado passaram a pertencer em minha vida à categoria de obras universais, que são lidas por qualquer geração, em qualquer tempo de nossa história.

Um desses livros é o romance “Dom Casmurro”, publicado por Machado em 1900, embora o livro tenha sido impresso no ano anterior, em Paris, pela editora francesa H. Garnier, uma das mais prestigiadas daquela época, que tinha sede na chamada Corte do Rio de Janeiro.

O romance “Dom Casmurro” completa agora 125 anos de publicado, mas é, certamente, um dos livros mais atuais de nossa moderna literatura. É impossível não o ler sobre indagações e questionamentos, dúvidas e elucubrações a partir da relação de Bentinho, Capitu e Escobar.

A ideia central da narrativa se dá pelo fato se Capitu (Capitolina) traiu ou não Bentinho, ou Bento Santiago, com quem a personagem se casa e tem um filho, Ezequiel, sobre quem o marido carrega a suspeição de ser não natural dele, mas do melhor amigo Escobar.

Este enredo é mais forte do que toda a história em si, daí seu cunho universal. Machado de Assis, sob a lógica patriarcal do século 19, coloca o testemunho dos acontecimentos na boca do marido traído –ou seria um ciumento contumaz?

Trazendo para o âmbito da psicologia do casal, o autor aloca toda dúvida sobre a fidelidade do relacionamento sob a suspeição de Capitu, recaindo em Bentinho a pecha do “marido traído”, e não, fora de dúvidas, do homem obsessivo atrás de uma prova que não tem condições de sustentação.

Se Capitu fosse uma mulher do século 21, ela iria para as redes sociais e saberia dar as respostas necessárias às desconfianças de Betinho e, obviamente, mudaria o curso da história.

Então, na perspectiva da visão de Capitu, certamente, teríamos de fato outra história –talvez um novo livro, quem sabe com título também diferente. Ao mesmo tempo, “Dom Casmurro” tem algo de nebuloso, confessional e cínico: Machado de Assis desde sua juventude assemelha-se um pouco a Bentinho e Capitu –um misto de homem “caramujo” e “olhos de ressaca”.

Mas eu tenho que respeitar o que disse alhures Marco Lucchesi sobre o Bruxo do Cosme Velho: “Cada um de nós traz uma ideia vaga de Machado”. Eu trago a minha ideia; o leitor desta coluna, com certeza, traz a dele.

Machado de Assis morreu no mês de setembro de 1908, aos 69 anos, na sua casa do bairro do Cosme Velho, quatro anos depois de sua esposa e companheira, Carolina Augusta Xavier de Novais.

O certo que Machado de Assis é autor de todos os tempos. Seu gênio literário é captado por nós já na primeira leitura de seus textos, sobretudo nos contos e romances.


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