Lágrima Ríos é um baluarte da cultura uruguaia e a mais perfeita tradução de talento e resiliência nos vastos territórios do tango, do candombe e do bolero.
Gema latino-americana que irradia seu legado em várias direções, Lida Melba Benavídez Tabárez (1924-2006) transitou da infância pobre à descoberta artística; dos cafés de bairro aos palcos internacionais; do racismo sentido na pele à luta contra a discriminação como representante das Organizações Mundo Afro, importante coletivo uruguaio.
“Senhora do tango”, “dama do candombe”, no centenário de seu nascimento —celebrado no ano passado— ela batizou o primeiro evento massivo do seu país natal dedicado à cultura negra, um festival gratuito que contou com Emicida entre os artistas convidados.
“A trajetória de Lágrima me ensinou que o caminho artístico está empedrado do bom e do ruim que acontece na sua vida, mas que são coisas que também compõem a arte, a forma de interpretar a alegria ou a dor”, afirma à Folha a cantora e atriz uruguaia Angela Alves, que viveu Lágrima Ríos na ópera “La Perla Negra”, em Montevidéu, em 2023.
Lançamento após 23 anos
Em vida, o reconhecimento que teve ficou aquém da importância real de sua figura, mas no vaivém da história e da memória, a correnteza do canto de Lágrima Ríos não cessa e se transforma em uma nova onda que traz disco e livro sobre a artista.
Após duas décadas perdido, o álbum “En el Sena” apresenta as gravações da intérprete em Paris, em 2002, quando imprimiu uma leitura muito pessoal a clássicos como “Vereda Tropical” ou “Duerme, Negrito”, além de temas de autores como o uruguaio Carlos “Pájaro” Canzani, músico, compositor e produtor do disco neste momento e que agora recuperou os registros.
Suas muitas vidas —motor de um estilo único e dúctil, a um só tempo, que se adaptava aos mais diversos gêneros e situações—, sua curiosidade artística e seu trabalho social pontuaram uma trajetória que “imprime maturidade ao canto e evidencia a paleta emocional que fez com que uma intérprete como ela se destacasse entre outras”, observa Alves.
Biografia com arquivos pessoais
Também está por ver a luz uma nutrida biografia da artista —que em 2008 participou do documentário “Café de los Maestros”, a partir do projeto musical do argentino Gustavo Santaolalla.
Com lançamento previsto para o final deste mês, “Lágrima Ríos, 100 Años”, do escritor e pesquisador Martín Borteiro, narra a vida e a carreira da cantora a partir dos arquivos pessoais da artista e de textos inéditos e póstumos de especialistas do universo do tango, ao lado de mais de uma centena de fotos.
“Lágrima Ríos teve a sabedoria de converter as tristezas e as injustiças em um compromisso com sua própria história de vida e com a cultura afro-uruguaia toda, que a sente como uma das suas mais fiéis representantes”, reflete o autor.
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