Acho que escrevo para este jornal há pelo menos uns 13 anos e, durante todo esse tempo, já devo ter cometido a crônica “Não gosto de Carnaval” no mínimo umas dez vezes. Eu de fato não suporto, mas, sinceramente, quem se importa com isso?
Quem liga para a foto de uma pessoa isolada no mato, com a legenda “Meu Carnaval dos sonhos”? Quem se emociona com o especialíssimo ser em um cinema vazio ou exibindo, deitado na rede, um livro nas coxas: “O bloco do Eu sozinho”. A piada com a fobia social e a pouca bateria para festividades já deu. Entendi, você gosta de ficar em casa, de ar-condicionado, de romance autobiográfico francês, de ver Netflix longe da bagunça, nossa, que superior você é. Ui, ui, ui, ela é fóbica com multidão, com calor, com “falsos” regozijos.
É muito desesperador quando você encara a sua persona literária e pensa: “Fulana, na boa, não te suporto mais”. Quem ainda liga para as minhas crônicas sobre crises de ansiedade, nécessaire de remédios e manias obsessivas em viagens? Acima de tudo, quem vai suportar o milésimo texto sobre as crises vasovagais que eu teria pelas ruas quentes paulistanas se ousasse ir atrás de um bloco?
Por motivos de enfim apaixonada novamente, fui abençoada pela graça celestial do aborrecimento. Estar satisfeita é, para mim, um troço que me lota de ar a boca do estômago –e parece má digestão. E você com isso? Ninguém se importa (ou não deveria).
Pois não vá. Fique em casa. Arrume as gavetas da cozinha –aquela última gaveta onde moram todos os “por que eu tenho isso”, tipo canudos de metal, treco de fazer espaguete de cenoura e forminha de gelo em formato de diamante. Arrume quieta, não ache que precisa dizer “Arrumar gavetas > Carnaval”. Ninguém se importa com a bagunça da sua cozinha ou com suas regatas de lantejoulas. Ninguém se importa com o fato de que você vai aproveitar a farra da seminudez para ser misantropo ou para exibir o “orgulho de um corpo real”. Ninguém tá nem aí para o seu quadril que alargou ou para o meu braço que afofou.
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Os raios deliciosos e insuportáveis do apaixonamento. Você de boas e a minhoca elétrica te pega várias vezes no meio da tarde. Os miniespasmos lembrando aquela boca, a barriga, a mão. Que maravilha, que horror. E, assim como o Carnaval, nada disso importa.
Os amigos todos cagados de tintas, perucas e brilhos e ela vendo as fotos: Você acordou cedo pra isso? Pra ficar em pé, no calor, no sol, desprotegido embaixo do céu do fim do mundo, fazendo de papel higiênico o contrato de paz que havia assinado com a sua lombar, vestida como uma atriz namoradinha do Brasil que topa, aconselhada pela agente, pelo menos uma vez na vida interpretar uma border que foge com o circo? Seu fígado já todo perdido tentando metabolizar o seu descaso, você beijando boca com casquinha de herpes? Quem se importa com o baile da Vogue, o Copacabana Palace, sua bunda na meia arrastão, as amigas mostrando a teta e fazendo textão político, os 176 conhecidos que eu encontraria na Charanga do França e pensaria “gosto só de uns cinco desses”?
Eu não tô nem aí para o seu Carnaval e você não tá nem aí para o meu. O jeito como ele se deita no chão da sala para contar baixinho no que vem pensando, o desenho do ombro enquanto dorme. Nada demais está acontecendo.
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