É sempre bom ver Robert De Niro nas telas, pequenas ou grandes, e melhor ainda quando ele aparece fora da sua zona de conforto dos últimos anos, entre o sogro ranzinza de comédias familiares e versões light dos gangsters que marcaram sua carreira. “Dia Zero”, minissérie que estreou na semana passada com alarde na Netflix, oferece essa chance.
Há também um elenco estelar —Angela Bassett, Jesse Plemons, Lizzy Caplan, Joan Allen e Connie Britton estão lá— e uma porção de temas que falam alto aos nossos tempos, como radicalização política, bilhardários da tecnologia que gostariam de tomar as rédeas do país, conspiração, ataques cibernéticos e uma complicada teia de interesses e corrupção.
Falta, porém, um roteiro capaz de amarrar tantos nomes e temas de uma forma que envolva o espectador. O que vemos em tela é um enredo paradoxalmente caótico e protocolar, que parece ter saído de um prompt preguiçoso para o ChatGPT ou outra inteligência artificial generativa qualquer.
A trama, assinada por Eric Newman (“Narcos”) e Noah Oppenheimer, relata os dias seguintes a um ataque cibernético contra o sistema de transporte americano, que deixa mais de 3.000 mortos e a população e os políticos tateando por respostas, temerosos de que seja só o começo.
Para investigar quem estaria por trás do plano maquiavélico, a titular da Casa Branca, Evelyn Mitchell (Bassett) convoca o personagem de De Niro, George Mullen, um ex-presidente lembrado por (1) seu trânsito dos dois lados do espectro político, (2) pela desistência de disputar a reeleição e (3) por uma tragédia familiar.
Em seu percurso, ele terá de lidar com um assistente ambicioso (Plemons), a CEO de uma gigante tecnológica que pensa comandar um Estado a parte (Gaby Hoffmann, em uma atuação explicitamente inspirada em Elon Musk), um youtuber anarquista que manipula milhões de seguidores (Dan Stevens) e um deputado tão poderoso quanto corrupto (Matthew Modine). Ainda há, no meio do caminho, uma filha deputada progressista incrivelmente ingênua (Caplan).
O problema é que nenhum desses personagens parece ter mais do que uma dimensão. São estereótipos rasos que mesmo na mão de ótimos intérpretes não conseguem oferecer nada além de uma escada para De Niro, cuja atuação sóbria e delicada traz uma fragilidade comovente a um protagonista de tintas heroicas bastante convencional.
Pior, no mundo de “Dia Zero”, ninguém parece fazer nada certo. Nunca. Nem a mídia, nem os políticos, nem os empresários, nem a população. Há apenas um homem que pode salvar o dia, e esse homem começa a duvidar de sua própria capacidade.
A série até passa de relance por discussões momentosas sobre etarismo e sobre como as melhores intenções podem ser corrompidas com desinformação a serviço de terceiros. Mas o roteiro rocambolesco está mais ocupado em criar uma espécie de boneca russa de conspirações, que se apresentam aos poucos até chegar a uma (previsível) revelação final.
Fãs de De Niro podem se arriscar com “Dia Zero”, são apenas seis episódios, e em seus melhores momentos dá até para lembrar da fase boa de “24 Horas”. Só não espere que a série faça jus ao elenco. Ela é, na melhor das hipóteses, satisfatória.
Os seis episódios de “Dia Zero” estão disponíveis na Netflix
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